Amados irmãos e amadas irmãs, minhas singelas saudações a todos vós. De modo especial, saúdo nosso arcebispo e pastor, Dom Raul Alberti Cardeal Damasceno, em nome de todo o clero local de nossa amada Arquidiocese de São Paulo, e também estendo esta saudação aos irmãos sacerdotes de outras Igrejas particulares que se fazem presente, sintam-se muito bem acolhidos no seio paulistano, bem como todo o povo de Deus que se faz presente nesta solenidade, para juntos contemplarmos o mistério do Corpo e Sangue de Cristo.
Hoje somos chamados a recordarmos a quinta-feira santa, onde na última ceia, Jesus celebrou a primeira Santa Missa da história, transubstanciando o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue, como uma oferta de sacrifício de Deus ao homem, do Pai aos seus filhos eleitos. Esta solenidade foi instituída pelo Papa Urbano IV, no ano de 1264, que inspirado pelo milagre eucarístico de Bolsena, onde Jesus partido derramou seu sangue sobre o corporal manifestou-se diretamente naquele sacrifício de oferecimento. Este milagre foi a materialização do amor de Deus, que fez com que a Igreja instituísse uma data específica para recordarmos do sublime amor que se faz presente neste sacramento e do sentido dele em nossas vidas. Quando celebramos a quinta-feira santa, lendo a liturgia daquele dia, nossos corações, naturalmente, acabam por ficar contritos. Sabemos que na semana santa as sagradas escrituras se cumprem, e Jesus, no findamento de seu ministério, oferece-se de corpo e alma para a sua crucificação e remissão dos pecados da humanidade. Nossos cantos não saem com a mesma intensidade, pois também sentimos a dor de Jesus. Mas hoje, o modo de enxergar este mistério deve ser distinto. Recordamos a quinta-feira santa, só que com mais alegria. Uma eucaristia que antes se fazia reclusa ao cenáculo, para a comunhão exclusiva dos apóstolos de Cristo, hoje poderá passear em meio ao povo de Deus, mostrando que Jesus está presente em meio ao seu povo, imponente e glorioso. Em razão disso, hoje nossa solenidade de Corpus Christi será dedicada a três grupos tão oprimidos em nossa sociedade, excluídos da contemplação ao Nosso Senhor pelos fariseus senhores das Leis da contemporaneidade. Estes grupos são os negros, os indígenas e os LGBTQIAPN+. O corpo Santíssimo de Nosso Senhor pertence a todos, a todas e a todes, e devem ser incluídos à comunidade cristã para poder celebrá-lo.
Voltados ao que a palavra de Deus nos diz nesse dia, na primeira leitura, do livro do Deuteronômio, vivemos um contexto histórico diferenciado. Moisés já havia libertado o povo eleito da escravidão do Egito, e naquele deserto em que caminhavam, viveriam 40 anos, até que enfim chegassem à Terra prometida. Este foi um caminho de muitas provações para aquele povo que caminhava junto a Moisés. Sempre que passavam fome, um ataque de animais selvagens ou outro tipo de adversidade, questionavam a presença de Deus em meio a eles. O profeta, por tanto, faz uma dura advertência àquelas pessoas. Para elas, Deus era Deus apenas quando dava o pão de comer. A advertência de Moisés surge no sentido de que aquele pão que Deus dava para matar a fome no deserto não era apenas para alimentar fisicamente, mas também espiritualmente. Do mesmo modo que hoje vemos a eucaristia: um pão que alimenta o espírito, que mata o pecado e nos faz amar a Deus como Ele nos ama. Hoje é um dia em que devemos nos concentrar em olhar para o pão que nos mata a fome, o vinho que nos mata a sede, e atribuirmos um valor espiritual a eles. O valor do Deus que se manifesta em Espírito no nosso interior, nos unindo num só propósito.
Na segunda leitura, São Paulo diz em sua carta aos coríntios como a união, por meio da celebração do sacrifício do Senhor, nos interliga uns aos outros. Um só é o pão consagrado que nos alimentamos. Um só é o vinho consagrado que nos irrigamos. Estas oblatas consagradas, o próprio Jesus, fazem com que o mesmo e único Espírito Santo habite em nós. Nossa unidade se dá pela presença de Deus em nós. Ao instituir a eucaristia, Jesus entrega seu corpo e seu sangue aos seus apóstolos e os ordena que repitam aquela missa em sua memória. Fazer isso é estar unido, a missa, a eucaristia, são um gesto de ação de graças, onde todos nos unimos num só corpo e num só Espírito. O Concílio Vaticano II afirma que a eucaristia é um “convento de comunhão fraterna’ (Gaudium et spes, 38).” Ou seja, quando todos nos unimos para a comunhão deste Jesus eucarístico, nos tornamos mais fraternos, isto porque compartilhamos o Espírito.
Pelas palavras do Santo evangelho, o mais sublime valor do Corpo e Sangue de Cristo é atribuído pelo próprio Jesus. Os judeus descrentes, aqueles que não abriam seu coração para compreender a fala de Cristo, não eram capazes de entender o que o Senhor queria dizer ao falar que todos deveriam comer de sua carne e beber de seu sangue. Mais convinha levar o que Jesus falava ao pé da letra do que buscar entender o real sentido do que o Mestre falava. Os judeus sempre tiveram o conhecimento do antigo testamento, dos escritos dos profetas, do anúncio de uma eterna aliança firmada entre Deus e os filhos de Abraão. Este, em união a Melquisedeque, comungavam de pão e vinho consagrados, como uma forma de enriquecimento espiritual, comunhão com Deus e ainda faziam um pré-anúncio do que seria a eucaristia instituída por Jesus. Esta instituição é a renovação de numa eterna aliança que foi firmada pelo Pai e por Abraão no antigo testamento. Uma eterna aliança que agora se torna nova eterna aliança, pelo derramamento do sangue do Cordeiro imolado que caminhou até o calvário para seu sacrifício.
Só pela verdadeira comunhão deste sacramento, a comunhão física e espiritual deste Senhor presente, é que podemos adentrar seu reino de amor. Deixemos ser purificados por este Corpo e Sangue que lava as nossas almas, nos faz santos na medida que deixamos ele agir e mudar a nossa vida. Esta é a maior manifestação de amor que um Pai pode fazer por um Filho, e foi isso que Deus fez para nós. Tudo por conta do inesgotável amor de Deus e pela sua divina misericórdia.
Que neste dia, que pela adoração ao santíssimo sacramento, Deus nos conceda a graça de sermos santificados pelo seu sacramento e, que sempre prostrados aos pés de Cristo, sejamos dignos das glórias dos altares.

