Amados irmãos e amadas irmãs, saúdo com alegria em Cristo Ressuscitado a todos e todas. Em especial, o Presidente desta nossa celebração eucarística, o Cardeal Decano, Dom Jorge Snaif Cardeal Médici. Hoje celebramos a alegria do Cristo Ressuscitado. Alegria esta que, pela Igreja é tão grande, que não se limita apenas à mera celebração da Vigília Pascal, se estende ao Domingo de Páscoa, percorrendo as oitavas e todo o Tempo Pascal. A festa da Páscoa não deve ser pequena, mas deve se traduzir na mais sublime alegria de ser cristão. O cordeiro imolado ressurge gloriosíssimo pelo seu próprio poder. É a vitória que derruba a derrota. É o bem que derruba o mal. É a vida que derruba a morte. É a luz que derruba a escuridão. É a graça que derruba a mácula. E, mais importante que tudo isso, é Jesus nos mostrando que todos os nossos pecados se foram, e agora é o nosso momento de renascermos para Deus, livres de toda a sujeira de nossas almas, com a prova de que o Reino celeste existe e nos aguarda. Assim como Cristo renasce e vence a morte, nós também somos chamados a ressurgirmos, a vencermos a morte que é o pecado e escolhermos a vida do discipulado. Na cruz, o Senhor carregou todas as nossas vergonhas, humilhações, descrenças, dívidas... Ele nos limpou e sofreu pelos erros que nós cometemos. Mesmo livre de todo pecado, Jesus sofreu como um pecador, para que nós, de fato pecadores, não precisássemos passar por aquilo. Esta, portanto, é a oportunidade que Jesus nos dá de escolhermos a salvação, e não o mundo.
Neste contexto, a primeira leitura de hoje, extraída dos atos dos apóstolos, nos traz o testemunho de São Pedro. O apóstolo é um dos maiores exemplos de como compreender o mistério da redenção. Em sua cruz, Jesus carregou a negação de Pedro, a maior de suas vergonhas. E com a vitória do Filho, o primeiro Pontífice afirma que "todo aquele que crê em Jesus, recebe, em SEU NOME, o perdão dos pecados". É o próprio Senhor que nos livra de nossos pecados, pelo testemunho de São Pedro. Este testemunho, que lhe rendeu o martírio, bem como tantos outros que se entregaram ao derramamento do próprio sangue pelo anúncio do Ressuscitado, é o que nos ajuda a compreender o que é a redenção. O testemunho verdadeiro deve ser assim mesmo, meus irmãos e irmãs, louco pra ser ouvido, pois o Senhor não mediu esforços para que pudéssemos ser livres da falta de fé.
Outro que nos cede seu testemunho para a compreensão da redenção é São Paulo, que na segunda leitura, nos intima a almejarmos aquilo que é de Deus, aquilo que é do céu, e não aquilo é o do mundo. E, recordando o que eu já falava ao início, nós estamos mortos. Porque o pecado mata nossas almas. A luz que nela existia e era sinal de Deus, torna-se ofuscada pelas escolhas que fazemos ao longo de nossas vidas, que nos distanciam pouco a pouco da promessa do céu. A celebração anual do tríduo pascal nos recorda que o Senhor sempre estará disposto a nos livrar do pecado, a nos fazer ressurgir desta morte que escolhemos, mas, para isso, é necessário também que façamos periodicamente nosso exame de consciência e abramos mão do que nos afasta de Deus. Jesus vence a morte e nós devemos vencer o pecado, junto Dele. A vitória de Deus deve motivar nossa vitória também. Todo dia deve ser dia de páscoa, deve ser dia de ressuscitar para o Senhor.
No evangelho, os discípulos se deparam com o túmulo do Senhor, aparentemente, violado. Foi tamanha a demora para crer que, de fato, o Jesus havia vencido a morte. Contudo, ainda que tarde, sempre há tempo para que tomemos conhecimento do quão glorioso é o Senhor e que nada pode apagar o seu resplandecer pós-morte. Assim foi com os seus discípulos, e assim será com qualquer que deixe de crer na sua vinda. O Senhor sempre dará oportunidades para que os desgarrados se juntem a Ele novamente, pois sua misericórdia é proporcional ao seu poder: infinita. Mas tão oportuno é que vivamos esta reconciliação neste momento, em que tão evidente é o poder de Deus sobre todas as coisas. É seu renascer que deve ser a principal razão para que saiamos do comodismo do pecado.
Não somente para compreendermos o mistério da redenção, a vinda de Jesus nos convoca para compreendermos quem é sua pessoa. Quem é o Filho de Deus, propriamente dito, o próprio Deus. O Deus, que diferente de qualquer homem, prefere se tornar um homem de verdade, e não se manter na sua glória celeste. Deus escolhe ser um revolucionário, um contestador de regimes aristocratas. Jesus escolheu nascer como um pobre. Jesus disse no alto da cruz: TENHO FOME. Eu os questiono, meus amigos: este é um grito que está sendo dito apenas por aquele que está no alto da cruz? Não. Este é um grito que é ressoado por aqueles que estão nas ruas, igualmente gritando que têm fome, mas são esquecidos. Porque convém este esquecimento. Da mesma forma que foi um projeto político daqueles que crucificaram o Filho de Deus, hoje também existe um projeto político para manter esta crucificação eterna daqueles que habitam as ruas das periferias. Jesus venceu esta morte de cruz e ressurgiu gloriosamente. Jesus quer que todos também possam vencer esta morte e deixar de gritar que têm fome. Este Jesus que venceu a morte, foi aquele que reuniu um pessoal do bem para pregar o amor, pregar a paz, contestar o elitismo, e, da mesma forma que nós devemos fazer, ELE ATACOU QUEM TRANSFORMOU A FÉ EM MERCADORIA. Ele combateu com ardor o materialismo da fé. Este era o Jesus, cuja a elite tinha ódio, mas os pobres amavam. Este foi o Jesus que foi morto entre os bandidos, porque "também era um bandido". Assim como este Jesus, muitos outros "Jesuses" estão sendo mortos, como cordeiros, pelos "cidadãos de bem". Mas, os donos da Lei não puderam impedir a vitória deste Jesus. Porque este Jesus é muito maior do que a morte. E este Jesus há de fortalecer aqueles que são maltratados como Ele foi, e da mesma forma, dará força para que estes possam vencer, assim como Ele venceu e hoje exultamos pela sua vitória. Que o Deus livre nossos Jesuses atuais de terem que tomar do cálice dos cidadãos de bem outra vez.

