Homilia Dom Vito Alberti Lavezzo - Exaltação da Santa Cruz

Amados irmãos e amadas irmãs, minhas saudações a todos vós. De modo especial, saúdo nosso Beatíssimo Pai, o Papa João Paulo, que nos dá a graça de sua presença, bem como estendo esta saudação a todos os confrades carmelitas que se mantêm em unidade nesta celebração eucarística e também aqueles que não pertencem à bendita ordem do Carmo, mas mesmo assim se fazem presentes neste dia. Por último, mas não menos importante, saúdo a Irmã Kate Alberti Rossetti, que tendo concluído seu tempo de formação e reflexão, teve a sua aprovação para estar hoje fazendo seus votos perpétuos, diante de Deus, Nossa Senhora do Carmo e todo o povo que aqui se faz presente como testemunhas do dia em que te tornarás, de fato, uma irmã terceira. Não somente isso faz o dia de hoje importante para nós, mas também a festa que a Igreja nos convoca a celebrarmos juntos: a exaltação da Santa Cruz de Nosso Senhor.

Na primeira leitura, extraída do livro dos Números, vemos Moisés, enviado do Senhor, que a pouco havia libertado o povo hebreu da mão dos poderosos escravocratas egípcios. A alegria da libertação perpetrada por Moisés, que fora feita pela vontade e ordem de Deus, logo começava a perecer por conta das debilidades humanas. O povo sentia fome, sede e colocava em Deus e em Moisés a culpa por aquele perecimento. Aquelas pessoas que, anteriormente, nutriam a visão que o Deus libertador havia agido pelas mãos de Moisés começava a ser deturpada pelas necessidades humanas, estes chegando a conclusão de que o que Deus queria não era libertá-los, mas sim ter uma morte mais cruel. É neste momento que o homem coloca a si mesmo acima dos planos de Deus. Este mesmo povo que outrora duvidava do amor de Deus, passa a notá-lo que precisa de sua misericórdia para passar por mais aquele percalço ocasionado pela praga das serpentes. Voltando nosso olhar para esta leitura e refletindo acerca da festa da exaltação da cruz de Jesus, concluímos que, por muitas vezes, agimos como este povo. Acabamos por enfraquecer-nos na fé por acharmos que a peregrinação terrena será vivida apenas com triunfos. E, justamente, por nos importarmos demais com estes triunfos terrenos, esquecemo-nos de quantas vezes Deus demonstrou seu amor misericordioso por cada um de seus filhos. Somos falhos em demonstrar a Deus o amor de filho para o Pai, porém o Pai nunca falha em derramar o seu amor sobre seus filhos. É esta posição de ingratidão que assumimos, esquecendo da prova de amor de Deus fez por cada um de nós ao levar nossos pecados para a sua cruz, que a mesma ingratidão que o povo desta leitura cometeu ao duvidar do amor de Deus. Em resposta a isto, o salmista nos faz uma admoestação de importância salutar: "Das obras do Senhor, ó meu povo, não te esqueças!" O salmista nos recorda que não temos o privilégio de esquecermos das ações de Deus, isto porque cada uma delas é em razão de seu povo, pela salvação de cada um de seus filhos. Esquecer as obras do Senhor, ou ainda pior, duvidar de seu amor, é renegar a salvação.

E na conclusão de nossa liturgia da palavra, o evangelho de Nosso Senhor narrado por João nos leva à passagem que Jesus dialoga com Nicodemos, antigo fariseu que se converteu pelo que Cristo o dizia. Já de início, Jesus recorda a passagem que vimos nesta primeira leitura de hoje, quando Moisés eleva a serpente de bronze, para que a misericórdia de Deus fosse derramada sobre aqueles que voltaram a crer no amor contido em suas obras. Mas desta vez, observando por esta perspectiva, Jesus coloca-se no lugar daquela serpente. A serpente fora elevada para a salvação daquele povo, e desta vez, o Filho do Homem, que é o próprio Jesus, deveria também ser levantado para a salvação do povo. Na passagem da leitura dos Números, aqueles homens e mulheres libertados eram envenenados pelas toxinas da cobra. Em contrapartida, Jesus não vem para salvar o povo das toxinas das cobras, mas de um outro veneno: o pecado. Este veneno faz-se ainda mais prejudicial do que o veneno das serpentes, porque este veneno mata a alma, impede-nos de vivermos na morada de Deus, enquanto o veneno da serpente, apenas nos impede de vivermos na morada terrena, e tão grande era a compreensão de Jesus acerca deste destino que era reservado a ele, pois encerra dizendo que o objetivo da vinda do Messias nunca foi condenar os homens, mas salvá-los. Jesus assume, neste momento, que a única guerra que declararia em vida seria uma guerra contra a mácula, contra aquilo que serve para imundar o espírito humano. E, ser elevado no lugar da serpente de bronze, ou seja, ser pregado na cruz e elevado no calvário, seria a melhor de Deus mostrar aos seus filhos e filhas que o caminho da salvação estava naquela cruz que todos teriam que exaltar.

Portanto, irmãos e irmãs, a festa da exaltação da Santa Cruz deve ser por nós observada de dois principais ângulos: o primeiro é o amor transbordante de Deus por cada um de nós. Jesus poderia ter descido da cruz, atendido ao pedido daqueles que o crucificavam, que o batiam, tacavam pedras... Mas não. Jesus sabia que tinha que beber daquele cálice. Seria mais fácil ter ouvido seus inimigos? Sim, teria e ele poderia fazê-lo, mas não o fez porque se o fizesse, isso não seria uma prova de amor maior, mas um ato para salvar a si mesmo. Naquela santa cruz estava todo o pecado da humanidade, tendo sido este morto junto do Cristo. O segundo é a vontade do Pai. Jesus não se sacrifica apenas pelo amor aos homens, mas também pelo amor ao Pai. Tantos foram os profetas que o antecederam e descreviam quais eram os planos do Pai. Jesus não abdicou de nenhum desses planos, sempre cumprindo com a vontade Dele. Sempre que olhamos para o Cristo crucificado, devemos ser remetidos que o que salva é uma vida de amor e obediência. A ganância, o egoísmo, o egocentrismo, o ódio, dentre outras máculas que corrompem o espírito humano, devem ser tidas como mortas pela santa cruz de Cristo. Se você, meu irmão, minha irmã, busca manter tudo isso vivo, você nega o ato de amor de Deus por você. Você olha para todo o pecado morto, mas decide ressuscitá-lo em sua alma, corrompendo a si mesmo. Não faça isso. Olhe para a cruz, veja o pecado morto e o Salvador que se sacrifica para vencer a morte. Veja o Libertador que ama seus filhos e ama seu Pai. 

E, por fim, de igual modo, peçamos a Deus a graça de nos aproximarmos da perfeição do Senhor Jesus, mesmo sabendo que somos incapazes de alcançá-la. E quanto a ti, minha amada irmã e mãe, Kate Alberti Rossetti, tão sublime é a graça de fazer seus votos num dia tão importante como o de hoje. Em sua vivência, que a partir de hoje será como a de uma efetivada irmã terceira do carmo, exorto a ti que olhe à cruz todos os dias quando acordar, e que não deixe de olhar para a cruz sempre que passar por uma. E sempre que isso acontecer, lembre-se de viver ao modo de Nosso Senhor: amando ao teu irmão e à tua irmã, mas, sobre tudo amando a Deus e cumprindo com sua vontade.