"Aconteça o que acontecer, estou preparada. Jesus está aqui conosco". Estas palavras foram ditas por Santa Teresa Benedita da Cruz, nascida Edith Stein, dias antes de seu martírio na câmara de gás, junto a tantos judeus, nossos irmãos e irmãs, perseguidos nos tempos do nazifascismo.
Caríssimos irmãos e irmãs, acolho-vos nesta Igreja com amor e alegria para juntos celebrarmos esta sagrada eucaristia em memória de Santa Teresa Benedita da Cruz, co-padroeira da Europa. Hoje somos chamados para enxergar de forma ainda mais clara a forma como o carisma carmelitano nos influencia a uma vida inteira de entrega pela fé. Um apego indestrutível com a fé, que por Edith e tantos outros santos de nossa venerável ordem foi preservado, ao ponto de nunca renegarem esta verdadeira e salvífica fé que, pelo martírio, os concedeu a glória dos altares.
Na primeira leitura temos um trecho da epístola dos hebreus, em que este povo liberto retrata a luz de Deus, manifestada pelo seu Espírito Santo, como a fonte de sua força, da superação dos tormentos, do combate às aflições, como vai disse a leitura. Ao dizer isto, o povo reconhece que tão grande é o número de adversidades que nos acometem durante a vida mundana. São verdadeiras provas de fogo que o homem enfrenta diariamente, como por exemplo, os conflitos familiares, profissionais, dentre tantos outros. Como exemplo de adversidade da vida, este trecho cita o roubo dos bens materiais, uma realidade que até hoje é vivida por algumas porções da sociedade e tido, até mesmo, como algo normal de se acontecer. Porém, de maneira sucinta e explicativa, o povo hebreu sobrepõe sobre estas infelicidades da vida, a confiança que devemos ter em Deus, sobretudo a nossa esperança na vida eterna que sucede a vida terrena, que só obteremos se fizermos, como diz a leitura, a vontade de Deus. Ter a esperança na vida eterna nos faz menosprezar os adventuais fatos problemáticos do mundo, colocando acima de tudo o interesse em viver a vida eterna no reino de Deus. Esta é uma leitura que tão bem se encaixa no contexto em que viveu Edith Stein, a santa que celebramos agora. Em meio à uma realidade desanimadora, que colocava em jogo a esperança e a fé de qualquer pessoa, Edith manteve-se firme, já prevendo o seu martírio, mas nunca deixando de crer na presença de Jesus naquele meio. Esta leitura também nos traz esta carga: saber enxergar o Senhor até nos piores momentos em que vivemos, cultivando ainda mais a fé elucidante que temos junto à esperança na vida eterna.
E pelas palavras do Santo Evangelho de Nosso Senhor, narrado pelo apóstolo João, Jesus apresenta aos discípulos uma realidade cristã, que foi vivida por Edith, inclusive: a perseguição. O cristão, naturalmente, já é concebido para ser perseguido. Os profetas, principalmente Isaías, já anunciava que o Salvador viria, todavia seu próprio povo eleito seria o responsável por derramar seu sangue. Nós, como os atuais eleitos deste Salvador, que é Jesus Cristo, não escapamos das perseguições. Os falsos testemunhos e a influência midiática são as principais armas usadas para perseguir o cristão no dia de hoje. Embora isso não se compare às perseguições vividas por Jesus, os santos apóstolos, dentre outros santos, como a própria Santa Teresa Benedita da Cruz, a ridicularização do cristão também acaba por se configurar como uma espécie de martírio figurado, pelas palavras do Papa emérito Bento XVI. Diante desta realidade, a nós, cristãos, católicos e servos de Nosso Senhor Jesus Cristo, sacerdotes eleitos para o anúncio da palavra da salvação, devemos ser ainda mais capacitados em sermos guardiões da palavra e também fontes desta palavra aos irmãos. Todo e qualquer tipo de ato de represália vivido por cada um aqui, não deve desencadear um processo de enfraquecimento da fé, mas pelo contrário, deve abrir o processo de fortalecimento de nossa comunhão com o Senhor e sua Igreja, visto que a promessa de Jesus se cumpre a partir do momento que buscam nos perseguir pela fé que vivemos. Viver esta fé é saber que Cristo é a palavra e, por isso, fonte de toda a verdade. Nada nem ninguém pode desfazer esta verdade que é proclamada unicamente por Deus.
Portanto, meus irmãos e minhas irmãs, peçamos hoje a Deus a graça de contemplarmos de forma cada vez mais racional, e menos emocional, a verdadeira fé que nos conduz à vida eterna, ao exemplo de Santa Teresa Benedita da Cruz, que por seu amor ao Cristo e sua mãe, Nossa Senhora, teve esperança de viver no reino de Deus.

