Amados irmãos e amadas irmãs, minhas singelas saudações a todos vós. De modo especial, saúdo, em nome de todo o povo de Deus e dos sacerdotes que concelebram, o Monsenhor Geraldo Agnelo, que acolhe com tanta hospitalidade esta caravana peregrina que vem adorar ao sepulcro do Senhor, meditar a sua paixão e aguardar a sua vinda gloriosa da Páscoa, que é esta passagem do Deus Filho, que vence a morte, para a sua vitoriosa ressurreição.
Em primeiro instante, convido a todos para olharem ao que São Paulo nos diz em sua epístola que ouvimos hoje: "Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova." Mesmo sabendo que a paixão de Jesus trata-se de um ato de obediência e servidão do Filho para seu Pai e seu povo e que logo ele superará a mansão dos mortos e voltará à vida, vivemos um luto extremo pela morte de Jesus Cristo. Este sensação de luto que sentimos, explica o ato do Senhor. Foi necessário que se chegassem aos extremos para que sentíssemos a culpa pelos nossos pecados, pelas nossas traições, pelos nossos abandonos. E ao sentirmos esta culpa, nos colocamos dentro do sepulcro junto a Jesus. E agora, que Jesus levanta-se deste sepulcro e remove a pedra que o trancada, nesta vigília mãe somos chamados a levantar deste sepulcro do Senhor e reacendermos, assim como o fogo que se mantém em nossas velas, a fé naquilo que o Mestre nos apresentou como o testemunho da verdade de Deus. Para a perfeita reintegração da união da santíssima Trindade, que se encontrava rachada pela descida do Deus Filho à mansão dos mortos, é necessário que Jesus remova a pedra do Santo Sepulcro e vá de encontro aos seus discípulos, que se encontravam agonizantes e incrédulos sobre a sua morte. E assim como Jesus, também levantar desse sepulcro e remover esta pedra que nos tranca. Todavia, em nosso caso, a pedra que nos tranca não é a mesma que trancava Jesus. A pedra que nos tranca é a pedra do pecado. Pedra esta que nos manipula, nos faz tornar crentes em falsas promessas e nos entregar aos prazeres efêmeros do mundanismo. A pedra da fé superficial, que disfarçada de verdadeira fé, só nos faz suplicar ao Senhor nos momentos das adversidades e das necessidades, impedindo uma adoração e fidelidade constante à verdade de Deus. A pedra do individualismo, esta que nos distância da comunhão fraterna, mandamento este instituído pelo próprio Senhor Jesus. Ainda existem muitas outras pedras que nos mantém neste sepulcro e nos impede de ir atrás de uma "vida nova", como nos diz Paulo em sua epístola aos Romanos.
As leituras que vimos hoje nos atentam em sua maioria para o antigo testamento da bíblia. Conta-nos como Deus cria o mundo, cria seus filhos e suas demais criaturas, como ele nos elege como seu povo, como ele liberta este povo eleito, como este povo é testado, onde uns são aprovados e outros reprovados, segundo as leis de Deus. Até que nos encaminhamos para o novo testamento, onde neste caso tivemos a leitura de Paulo aos romanos ao qual acabei de fazer uma exortação. Todo o conjunto desta obra mostra como Deus ama seus filhos desde o princípio e perpetua este amor até os dias de hoje, caminhando para a eternidade. Deus cria suas criaturas para viverem à serviço do Homem, que ele fez à sua imagem e semelhança. E destas criaturas, ele retira o sacrifício para libertar o homem daquilo que o encaminha às trevas. Neste momento, em que vivemos em silêncio pela morte de Nosso Senhor, somos chamados a recordar de todos estes pequenos sacrifícios pela libertação do homem que Deus fez, até que se chegasse no maior dos sacrifícios, que é a morte de Nosso Senhor e a proclamação de sua Páscoa gloriosa.
Com isso, amados irmãos e amadas irmãs, não olhemos para este Cristo ressuscitado com superficialidade. Hoje, o Deus que venceu a morte, venceu o pecado, venceu o mal, olha nos teus olhos para chegar em teu coração e dizer: "Filho, tu não estás sozinho. Afasta-te do mal e te acolherei em meu reino de amor." Façamos de toda a Páscoa um recomeço, uma reformulação completa de nossa forma de viver e de nossa forma de ver o mundo. E por fim, faço referência à homilia feita ontem pelo Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia na realidade, para que com este tempo que vivemos, abdiquemos deste modo de viver, onde achamos ser onipotentes. Nossa mortalidade é uma forma de buscarmos uma vida mais próxima e em comunhão com o Senhor que derrama seu sangue e ressuscita para nos salvar.

