Amados irmãos e amadas irmãs, minhas singelas saudações a todos vós. No dia hoje, a Igreja nos convida a contemplarmos o dia que o Senhor entrega-se à morte de corpo e desce a mansão dos mortos, em sua gloriosa paixão. No dia de hoje, não somente isso, contemplamos também a concretização dos sacrifícios simbólicos que vimos durante todo o decorrer do antigo testamento. Sacrifícios estes como o oferecimento do pão e do vinho, feito por Melquisedeque a Abraão. Também podemos recordar de quantos cordeiros e ovelhas foram sacrificados em honra a Deus e pelo seu povo. Hoje vemos o cumprimento do sacrifício do maior dentre os cordeiros de Deus, sendo este maior por se tratar do próprio Deus que se sacrifica.
A passagem da Paixão contada por São João, não é protagonizada apenas por Jesus, mas também pela sua cruz. Naquele cruz que Jesus carregou por toda a via até o calvário, Jesus não sentiu o peso apenas da madeira. Se naquela cruz estivesse contido apenas o peso da madeira, o sofrimento seria um pouco mais atenuado. Mas naquela cruz estavam embutidos todos os pecados do mundo, todas as traições do mundo, todo o abandono do mundo. Jesus sem pecar, sem nos trair, sem nos abandonar, sofreu por tudo isso em nosso lugar. E pelo peso dessa cruz, somos intimidados hoje a refletir em nosso interior sobre os nossos pecados, que são tanto. E com esse reflexão, somos estimulados a buscar a mudança de nossa forma de viver, isto porque a cada pecado que cometemos, mais pesada se torna a cruz que o Senhor carrega. Jesus também sofreu com as traições da humanidade. Humanidade esta que Jesus até o fim. Foi traído por Judas Iscariotes, que outrora havia sido escolhido a dedo para a missão apostólica. Foi traído por Pedro, que o negou por três vezes antes do galo cantar. Foi traído pela multidão, que no domingo de Ramos o recebeu com clamores de alegria, entoando "Hosana ao filho de Davi", e posteriormente estava entoando "Crucifica-o! Crucifica-o!". E por fim, sofreu com o abandono. O abandono de estar ali, pregado, sofrendo a humilhação daquele povo, ao qual ele simplesmente quis amar, amar para salvar. Esses fatores acumulados causam em Jesus uma dor muito maior do que a dor física da flagelação, das torturas e da própria crucificação, pois esses fatores juntos são convertidos no peso da cruz que Jesus carrega. Ele acaba por se tornar o nosso Simão de Cirene, pois carrega as nossas cruzes nas costas.
E por que Jesus permitiu que tudo isso acontecesse? Jesus poderia ter evitado a sua crucificação? Poderia ter atendido ao pedido do sumo sacerdote e descido da cruz voluntariamente para mostrar que é o Filho de Deus? A resposta é SIM. Jesus poderia ter feito isso. Ora, se disséssemos que não poderia, estaríamos entrando em contradição quanto à onipotência de Deus. Então sim, Jesus poderia ter se livrado de seu sacrifício. Mas por que não o faz? Porque antes de Deus, antes de Rei, antes de Mestre, Jesus é um servo, um obediente servo. E por ser um obediente servo, Deus Filho cumpre com a profecia dos planos de Deus Pai. Profecia esta que vemos de forma clara na primeira leitura, do livro do profeta Isaías, onde previamente a palavra nos descreve o que seria a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Naquele momento, o povo não o via mais como o filho de Deus, mas um homem que blasfema. Despreza, cospe, humilha e maltrata o homem que estava carregando os pecados do mundo. Filhos ingratos, diríamos. Mas este é o grande mistério da crucificação de Nosso Senhor: a contradição que se reflete em ingratidão. Outra profecia se cumpre na paixão de Nosso Senhor, que é a contradição da humanidade. Profecia esta feita por Simeão, quando Maria vai apresentar o menino Deus na sinagoga, e Simeão diz: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações." E neste momento compreendemos a contradição que Simeão quer nos passar: o Senhor dá seu ensinamento e se sacrifica por amor aos seus filhos e, com isso, é respondido com o ódio ao extremo.
Em silêncio, sem resistir, como um verdadeiro cordeiro que caminha calmamente em direção ao abatedouro, Jesus escolheu derramar seu sangue com um único objetivo: salvar a todos os seus filhos. Na segunda leitura, da carta aos hebreus, vemos o chamado à profissão desta fé. Se não professamos desta fé, ignoramos o sangue que Jesus derrama pela nossa redenção, pela nossa conversão e vivência longe dos pecados. Ao Deus Filho, o que nos resta é nos arrepender de todo o mal que causamos, pois só assim atingiremos o objetivo de Jesus ao se sacrificar por nós.
Com isso, meus amados irmãos e amadas irmãs, faço a exortação de que após o dia que vivemos hoje, somos chamados a contemplarmos o sepulcro de nosso Senhor. Nele, meditemos a paixão que lemos hoje. Que possamos alcançar a graça de reformularmos as nossas vidas. Sem a hipocrisia de querermos nos fazer santos apenas na semana santa, ou pior, apenas na sexta feira santa. Que durante toda a nossa vida, possamos saciar a nossa fome e sede de santidade, consumindo do corpo e do sangue que Jesus ofereceu em sacrifício para demonstrar o seu amor e sua vontade de nos ver no reino de onde ele é o Rei, isto porque, por sua paixão, Jesus morreu, destruiu a morte e nos deu a vida.

