Estimado Dom Vitor Oliveira, que recebeu seu pálio pastoral, amados irmãos e irmãs, estamos celebrando o segundo domingo da Páscoa, o domingo da divina misericórdia, ou o domingo in albis. Três palavras marcam a nossa liturgia: mistério, fé e comunidade. Neste domingo, os recém-batizados, trajando vestes brancas tomavam seus lugares na comunidade para o tempo da mistagogia. O tempo da mistagogia é o Tempo Pascal, tempo de nos aprofundarmos no maravilhoso mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. E, por ser tempo de mergulhar no mistério, nós vamos nos aprofundando nas Escrituras e nas celebrações da Liturgia, na nossa experiência com o Ressuscitado. E quanto mais nos aprofundamos, mais percebemos que esse mistério é inexaurivel, não se esgota, sempre tem algo novo a revelar, sempre tem algo novo a mostrar para nós. Quanto mais nos aprofundamos no mistério, mais vemos que temos a nos aprofundar, mais percebemos que ainda não conhecemos quase nada sobre a imensidão de Deus. Diante dessa revelação do mistério a que somos chamados de modo especial nesse tempo Pascal a nos aprofundarmos, nossa resposta é a fé. A fé é um dom de Deus a nós. Ele se revela e a fé é nossa resposta, nossa adesão a essa Revelação, a essa pessoa-revelação que é Jesus Cristo. A fé é aquela fé dos apóstolos no Evangelho de hoje que afirmam: vimos o Senhor. A perícope evangélica se inicia no anoitecer daquele primeiro dia da semana, o domingo da Páscoa, com seus acontecimentos que ouvimos essa semana: as mulheres no túmulo, a ida de Pedro e João, a revelação de Jesus a Maria Madalena, o episódio dos discípulos de Emaús, enfim, aquele dia culmina em Jesus que entra onde estava os seus. Entra com seu corpo glorioso, tão bem representado pelo Círio Pascal, que é um corpo desconhecido para nós. Jesus se põe no meio deles, sopra sobre eles o Espírito Santo e os deseja a paz. Eles tem fé e reconhecem ter visto o Senhor e é isso que anunciam a Tomé. A maior dificuldade para Tomé não é meramente a falta de fé, mas é o fato que ele não estava na comunidade reunida naquele domingo da Páscoa. E é justamente por não estar na comunidade de fé, que lhe falta a fé. Irmãos e irmãs, somos católicos. A nossa experiência de fé é vivida na comunidade. Credo in Ecclesia, que rezamos no Creio, é creio na Igreja, com o duplo sentido de crer na Igreja, mas também de crer dentro da Igreja. É na comunidade de fé reunida que se experimenta o Ressuscitado. Mas, a comunidade não é apenas uma agremiação de pessoas, comunidade é onde vivem os que se amam. E o modo de amor vivido pelas comunidades da qual fala os atos dos apóstolos é a partilha dos bens. Os cristãos tinham tudo em comum e partilharam seus bens com alegria. Nós, como católicos, acreditamos na destinação universal dos bens. Não defendemos o capitalismo desmedido nunca. A Doutrina Social da Igreja é clara para nós. Os bens devem ser partilhados, senão pelo espírito de uma comunidade universal, pelos critérios da justiça. Mas, oxalá construíssemos essa nova humanidade, onde todos fossem de fato uma comunidade. Uma comunidade de fé, que mergulha no mistério do Senhor, que toca o Senhor. Tomé não precisou tocar para crer, bastou ver o Senhor com a comunidade e professa nele a sua fé. Nós, que muitas vezes precisamos tocar, tocamos no seu corpo Ressuscitado na Eucaristia, nos irmãos e irmãs, e quando estendemos as mãos para ajudar os que estão sofrendo. Aí tocamos o mistério, aí tocamos no lado de Jesus, aí a nossa fé alcança a concretude daquilo que professamos: Meu Senhor e meu Deus!

