Homilia Dom Vito Lavezzo - Paixão de Cristo


Beatíssimo Pai, Papa Gregório,
caríssimos irmãos e irmãs que se reúnem hoje nesta Basílica Vaticana.

Neste segundo dia do tríduo pascal, vivemos e sentimos a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Munido unicamente da cruz e de nossos pecados, Jesus paga com a mais cruel das penas pelos atos que nós cometemos.

O evangelista João, que de perto acompanhou Nosso Senhor em agonia, diferentemente do evangelista Marcos, insere-nos à Paixão de maneira muito mais profunda, porque nos relata os diálogos que levaram o Senhor à pena de morte. Estes diálogos não foram descritos pelo evangelista por acaso. Pelo contrário, as mensagens que eles carregam são indispensáveis para que a humanidade como um todo possa contornar os rumos que suas vidas levam.

Por meio da narração desses diálogos, João passa valiosas lições não só aos descrentes que necessitam se converter, como também à própria Igreja do Cristo crucificado, que igualmente aos descrentes, precisa se converter.

Em seu primeiro contato com Pilatos, Jesus é confrontado pelo representante do Império Romana, que a Ele diz: “Tu és o rei dos judeus?”. Obviamente, Pilatos falava com ironia e zombando de Jesus, como se fosse um louco. De maneira inesperada, Jesus o retruca dizendo: "Está dizendo isso por ti mesmo, ou outros te disseram isso de mim?”.

Jesus não queria a misericórdia de Pilatos, até porque não cabe a Pilatos ter misericórdia do Filho de Deus. Jesus, na realidade, buscava conduzir Pilatos à uma reflexão própria e superior. Como sujeito político que é, o mandatário romano não tinha nenhum desejo pela satisfação espiritual e se nutria unicamente de relações políticas, razão pela qual mais valia a ele condenar Jesus à morte para manter boas relações com a elite judaica a que fazer a Justiça propriamente dita, a qual ele mesmo acreditava ao afirmar que não via crime em Jesus.

Mas Pilatos era revestido de um típico ceticismo, que até os dias de hoje se faz muito presente nas camadas da sociedade, em especial entre a classe política e privilegiada. E aqui vai a mensagem de Jesus, contada por João, aos descrentes. Jesus afirma a Pilatos que veio ao mundo para dar "testemunho da verdade". Um autêntico testemunho do que existe e do que não existe; do que leva ao céu e o do que não leva ao céu. Mas logo é retrucado pela autoridade política: "O que é a verdade?".

Pergunto-vos, para que apenas indaguem a si: quem nunca ouviu esta pergunta em uma aula qualquer de filosofia?

O conceito de verdade sempre vem à tona ao debate. Os filósofos (e até mesmo aqueles que se metem a ser filósofos) sempre arguem a discussão não só sobre o conceito do que é a verdade propriamente dita, como também instigam uma confusão ideológica repleta de subterfúgios para que os interlocutores de uma debate definam qual é o lado verdadeiro e o lado falso de uma história.

Mas se nós formos observar estes debates, nunca o argumento de Jesus é válido para ser utilizado. Estes ideólogos sempre separam o que é a verdade e o que disse Jesus. E se você ousa usar Jesus como fundamento da verdade e fonte de conhecimento, logo é acusado de ser um fundamentalista religioso pelos descrentes. A razão desta postura quase que escaldante sobre Jesus é por motivo muito simples: Jesus é a própria verdade. Jesus é o Verbo que se fez Carne. É o Deus que abriu mão da sua divindade para ser um Homem. A palavra é a verdade, Logo, Jesus é a própria verdade.

Com esta revelação de Nosso Senhor, não há mais espaços para que nos questionemos o que é e o que não é a verdade. Jesus resignifica o sentido da palavra DEUS.

Há uma clara tentativa daqueles que são céticos e descrentes de relativizar quem é Deus e o que é Deus. Deus para os católicos é um. Deus para os protestantes é outro. Deus para os judeus é outro. Deus para os muçulmanos é outro. Cada um com o seu Deus. Cada um com o seus valores. Cada um com a sua verdade e não se debate mais isso. Pilatos tinha este tipo de posicionamento. Para ele, pouco importava se os judeus estavam certos sobre Jesus ser um charlatão mentiroso ou se Jesus estava certo e era mesmo o Filho de Deus. É um clássico exemplo de "relativizador" da verdade, que até hoje existem aos montes.

Para Jesus, não se pode ter espaço para essas relativizações. Ele é a verdade e nos dá o testemunho desta verdade. Ele carrega a cruz para nos provar que nós devemos nos render. Ele se rende aos romanos e aos judeus para que nós nos rendamos a Deus. A mensagem que Jesus traz aos descrentes e céticos é que a verdade tem um conceito: ela é Deus. E o que é o verdadeiro é o reino de Deus.

Continuando a análise dos diálogos do Paixão, João nos revela uma verdade dita por Pilatos e que deve ser base para formação daqueles que estão dentro da própria Igreja. Aqui, já não falamos mais dos descrentes e céticos, mas sim da própria comunidade cristã. João ao narrar Paixão não se esquece de recordar à Igreja que a sua composição precisa se converter diariamente, para que não acabe como os céticos e descrentes.

Logo após o momento em que Jesus tenta trazer Pilatos à uma reflexão superior a daqueles que haviam o entregado, indagando-o se o chamava de Rei dos Judeus pelo que ouviu do Sumo Sacerdote Caifás, Pilatos novamente retruca Jesus, dizendo: "O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim".

O próprio povo de Jesus o havia entregado e Pilatos não mente quando diz isso. Judas traiu Jesus por algumas moedas de prata. Um de seus discípulos mais próximos o entregara; Pedro negou a Jesus por três vezes. Aquele mesmo que antes havia jurado amor ao seu Mestre; o restante dos apóstolos, após a captura de Jesus, quase todos fugiram com medo do que os romanos poderiam lhes fazer e abandonaram o seu Mestre nas mãos de seus algozes. Ora, poderia ter pensado Pilatos naquele momento: "se a própria gente deste Jesus o abandonou, é porque não acreditam tanto assim em suas revelações. Por que eu acreditaria?".

Naquele momento, o povo de Jesus também era seu algoz. Enquanto Jesus era o testemunho da verdade, seu povo passou a ser testemunho da mentira, com raras exceções a exemplo de Nossa Senhora, que acompanhou seu Filho até sua morte de cruz, e do próprio evangelista João. Como Jesus seria credibilizado por alguém que já é cético e descrente, como Pilatos, se nem o seu próprio povo o credibilizou no momento de sua captura? Como?

Ainda que Jesus fosse submetido a um justo julgamento, com direito a advogado, testemunhas, provas materiais que comprovassem a ausência de ilicitude nos seus atos.

Quem seria advogado de Jesus? Pedro, que empunhou sua espada em primeiro momento, já não estava mais ali para fazer a defesa de Jesus.

Quem seria testemunha a favor de Jesus? Nossa Senhora? Qual é a credibilidade que uma mãe tem para depor em juízo em favor de seu filho? Uma mãe é capaz de dizer qualquer coisa para inocentá-lo, inclusive de se entregar à morte para livrá-lo. E não há dúvidas que Nossa Senhora o faria, mas sabia que era a missão de Nosso Senhor fazê-lo pela redenção da humanidade.

Jesus já não tinha ninguém. Seu povo havia o entregado, como disse Pilatos. Não havia testemunho em favor de Jesus.

Nos dias de hoje, este testemunho cabe a nós, a Igreja de Cristo. Estamos entregando um autêntico testemunho de quem foi Jesus? Estamos amando como Jesus amou ou odiando como aqueles que o condenaram? Nossas palavras sobre o Senhor se resumem a um mero discurso de efeito ou verdadeiramente acreditamos e executamos aquilo que dizemos?

O testemunho que a grande maioria de nós entregamos é fraco e o nosso testemunho não chega próximo de ser autêntico como o de Jesus. E, por muitas vezes, estamos muito mais próximos de dar testemunho como Pilatos e Caifás, do que como Jesus. 

Tantas são as vezes que ignoramos os phobres e aflitos, onde verdadeiramente Jesus habita, para satisfazer um ego interior de que estamos mais próximos da elite. Simplesmente não estamos nem aí para os "Jesuses" que morrem nas favelas, sem a chance de construir uma vida digna. Jesus foi vítima do ódio. Este ódio ainda existe e mata diariamente.

Diariamente.

E qual é o testemunho que estamos dando sobre isso? Infelizmente, alguns dentre nós ainda incentivam que mais "meios" para o ódio sejam disseminados, como as armas, o preconceito, a intolerância, a desigualdade, a segregação, o racismo, a aporofobia e tantos outros.

Nunca conseguiremos converter os descrentes e céticos se não nos aproximarmos do verdadeiro testemunho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Do contrário, é capaz que tornemos estas pessoas ainda mais descrentes e ainda mais céticas.

Para que cheguemos a este testemunho verdadeiro, somos compelidos à prática de mínimos sacrifícios. Jesus se submeteu ao sacrifício maior para que os nossos sacrifícios fossem mínimos. Existe prova de amor maior que esta, meus irmãos e minhas irmãs?

Já encaminhando para o fim, gostaria antes de fazer uma breve menção a Santo Afonso. Em sua obra "novena de Natal", Santo Afonso narra como ele imaginava que teria sido o diálogo entre o Deus Pai e o Deus Filho quando decidiram que o Deus Filho abandonaria a sua divindade para nascer como um homem comum. Esta decisão teria sido fruto de um louco amor de Deus phor nós. Vendo que seus filhos estavam afundados no pecado e condenando suas almas, Deus decide que Ele mesmo será sacrificado para que a humanidade possa retribuir igualmente este amor louco.

O filho diz ao Pai:

“Apesar de tudo que fizemos, Pai, para ganhar o amor do homem e da mulher, eles ainda não reconhecem nosso amor a eles. Mas podemos os obrigar a nos amar se eu, Seu Filho, para redimir a humanidade, fosse para a Terra e assumisse a carne humana, e oferecesse a toda humanidade o dom da salvação, doando minha vida para eles, na Eucaristia e na Cruz”.

E o Pai, comovido com esse ato supremo do amor, sentiu-se obrigado a dizer ao seu Filho:

“Mas, filho, se for lá, eles vão crucificar você”!

E o filho, em resposta, disse:

“Mesmo assim, Pai, eu vou – tenho que mostrar-lhes Seu coração amoroso e salvador”. E o verbo de Deus se fez carne.

Meus irmãos e minhas irmãs, é necessário uma extrema vontade de não acreditar no amor de Deus depois de tudo o que Ele fez phor nós. Não enxerguemos a Paixão como um simples derramamento de sangue do cordeiro imolado, mas sim como o exemplo do mais puro, poderoso e inesgotável amor.